Novo Ano de MMXIX

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Saúdo V.M. e lhe conclamo perdão pela demora procedida desde a última missiva que lhe enviei desta Terra de Santa Cruz. Ao que sinto, já é do conhecimento de V.A. o resultado do derradeiro pleito eleitoral conduzido perante os pares deste solo distante das luzes do velho continente. Se meu antepassado outrora escreveu que “nesta terra, em se plantando, tudo dá”, devemos reclamar com os profícuos coveiros que aqui laboraram, pois sepultaram uma horda de malfeitores e delinquentes, ao visto, todos mortos em solo brasiliano. Digo isso, Majestade, com profunda dor na minh’alma e muito temor dos tempos que se anunciam, distante que estamos eu e minha família de nossa terra-mãe Portugal por força de ofício dos mais penosos, que é o de retratar os acontecimentos aos vossos olhos magnânimos.

Atemo-nos aos fatos, os súditos e moradores de Terrae Brasilis acharam por bem escolher o Messias como representante local. Sim, tal qual como dito nas escrituras, o eleito no sufrágio universal possui a alcunhada de Messias. Tivesse V.A. atendido às orientações do Barão de Itararé e somente permitisse a participação na festa democrática daqueles que demonstrassem sanidade mental, teríamos afastado no mínimo metade do eleitorado e dos candidatos. Isso porque a massa mal evoluída de eleitores, néscios em matéria republicana, se deixaram levar por promessas virulentas e canhestras, embaladas e replicadas por chalatonistas, todas propaladas pelo candidato vencedor, um ser medíocre em sem expressão, segundo malfadado religioso local, que contava com mandato de representação na Casa Baixa fazia mais de vinte anos. Trata-se de um miliciano expulso das fileiras por conspiração e quebra de hierarquia, mas que não retirou de si o espírito marcial que o julgara indigno por conhecida peleja em defesa do seu soldo.

embora V.M. tenha permitido a pluralidade agremiativa, com mais de XXX legendas ativas em território brasiliano, o discurso se propagava apenas na direção vertical e extremista da esquerda contra a direita Talvez a se fazer cumprir a escrituras, em que falsos profetas se apresentarão como líderes do povo escolhido, o então candidato logrou êxito no embate eleitoral e derrocou a candidatura do representante do Partido da Estrela, tendo embalado sua campanha por fanatismo irracional, bem como pelo medo do fantasma do comunismo, em uma repetição da história atual do País, que passou tenebrosos anos de chumbo sob o jugo militar sob a mesma escusa. Bradando palavras de ordem e de baixo calão, ergueu-se perante as opções postas no circo eleitoral, conduzindo sua campanha nas trevas e nas sombras de grupos caóticos de mensagens sem fio.

Ousasse eu dizer minha opinião, ao que relato apenas e sem cores os acontecimentos tais quais procedidos, diria que o Pleito Cidadão foi tomado por enorme acharque de informações mentirosas e demasiada polarização entre os que se diziam assentados à esquerda e os que se diziam de direita, em referência ao ocorrido no parlamento francês do século XVIII. E embora V.M. tenha permitido a pluralidade agremiativa, com mais de XXX legendas ativas em território brasiliano, o discurso se propagava apenas na direção vertical e extremista da esquerda contra a direita, escolhido um inimigo comum entre as facções políticas que seria o “político corrupto”. Sim, Majestade, o povo não mais tolerava a condução da política por um político, tendo a todos os egressos das casas legislativas como inimigos do sistema. Contraditoriamente elegeram justamente aquele que por cerca de trinta anos não produziu qualquer riqueza ao País, quer social, quer intelectual, quer legiferante, quer econômica. E mais: enquanto todos reclamavam os arranjos e apadrinhamentos, o Messias empurrou de solavanco toda a prole eletiva em cargos públicos, desde da vereança local da Guanabara até a cadeira na Casa Alta. Essa foi sua verdadeira façanha: ser mais do mesmo e levar consigo o que há de pior no discurso de ódio que se levantou em torno do cotidiano. Reconhecidamente intolerante em suas opiniões sexuais, religiosas e sociais, o Messias brasiliano deu voz ativa a parcela da população que se viu reconhecida e representada por sua troglodice, adormecida sob as lições de educação e dos bons modos que muito custaram para a evolução social e cultural do tenro solo brasiliano. Enquanto o combate à escravidão fez com que senhores de terra perdessem mão de obra barata para seus cafezais e canaviais, agora se levantam os novos ricos para repor os grilhões sobre os pobres de bens materiais.

Infelizmente o estrago está feito, posto que V.M. ao editar o ato de independência tornou-se mero observador do novo país que surgia no além-mar. Digo a V.A. que se lhe fosse dado respirar entre nós neste momento, por certo reconheceria a podridão que exala das falas de ódio e repulsa daqueles que defendem e elegeram a atual governança local. “Mito, mito!”, gritam eles, em funesta ode ao desamor e ao preconceito de classes. Pudesse o Poder Moderador imperar em terrae brasilis, seríamos salvos do futuro negro que nos espera no horizonte.

Contraditoriamente elegeram justamente aquele que por cerca de trinta anos não produziu qualquer riqueza ao País, quer social, quer intelectual, quer legiferante, quer econômica Mesmo assim, não pense V.M. que terei eu medo do cenário instaurado. Confesso inclusive que alguns compatriotas de mui estima me surpreenderam ao revelar a escolha eleitoral. Pessoas tidas por mim como de bom coração. Todos movidos por uma histeria coletiva de abjeção ao Partido da Estrela, a quem tinham depositado a esperança de uma revolução social jamais alcançada. A culpa imposta ao ex-governante, o Dedeta, é tamanha que até mesmo um processo e um juiz lhe foram criados como meio de promoção de uma sentença condenatória, tudo no fito único de retirá-lo do processo eleitoral e não frustrar a possibilidade de ascensão do Messias, que se resume diariamente a dizer que conjurará aqueles afetos ao Partido da Estrela, tendo a todos os que não o elegeram como terroristas e inimigos, incluso eu mesmo.

Penso não ser hora de esmorecer. Confio que a passagem, ainda que tortuosa, será necessária para o engrandecimento desta nação. Enquanto escrevo a V.M. estas breves linhas, outras tantas estão sendo escritas, em leis, pelos que não tem compromisso com a população mais carente. Que a história não perdoe a estes facínoras! Reportarei o quanto antes as novidades desta terra que sonha um dia ser grande e belo jardim de flores, mas que não passa de quintal descuidado e baldio.

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