Suprema inconstância

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Perdoe-me V. Majestade pelo atraso das notícias desta Terra de Vera Cruz que sonha um dia ser um Portugal, mas que não passa de terreiro atrasado e sem futuro às próximas gerações. Eu mesmo, que conto com os préstimos de uma boa linhagem, vindo aqui parar apenas por força de ofício dos menos gratos, me vejo tolhido de bens e material humano que somente se acham além-mar, tais como bons vinhos e queijos. Como diria o jovem cancioneiro local da vila em que me encontro, “a vida é muito pior”. Mas evitando que vossos olhos sempre benignos marejem com minha penúria, reporto trauma maior suportado por todos os que aqui vivem. Isso porque, embora tenha V. Majestade dado autonomia à colônia para que se organizasse politicamente para futura independência, cedendo, inclusive, prestimosos servidores de Portugal para implantação da burocracia estatal necessária ao seu bom funcionamento, os últimos anos têm se revelado desesperançosos aos que sonham terminar seus dias em solo brasiliano. Inicialmente foi apresentado o bipartidarismo, introdução política de fácil acesso aos neófitos que decidissem servir a pátria. Bastava se coligar a um dos dois partidos existentes e arregimentar o eleitorado em afeição às propostas liberais ou sociais, a depender do grêmio escolhido. Ocorreu que a notícia de um sistema plúrimo, de várias legendas, tomou conta da civilização moderna, fazendo com que aqueles insatisfeitos com os dois possíveis partidos gerassem um terceiro viés político, inicialmente com ideais operários, guiados pela revolução industrial ocorrida no berço europeu.

Mas não foi o suficiente. Outros tantos se quiseram independentes das três vias existentes, o que gerou a quinta, a sexta e as infinitas propostas partidárias, desde o comunismo ao comunismo nacional, passando pela solidariedade humana, ambiental, futebolística, da mulher, dos aposentados e de uma gama de legendas sem qualquer compromisso ou lógica entre seu nome e sua bandeira ideológica. Veja-se, por exemplo, que um tal Partido da Mulher Brasileira lançou para a governança de duas províncias dois homens como candidatos. Outro, um Partido Corinthiano, se diz representante de ideais sociais, nada aduzindo sobre a esportividade de seu nome, aceitando, inclusive, filiados torcedores do São Paulo e do Palmeiras. Por certo os ideais do pluripartidarismo não deveriam conduzir à uma Babel de legendas como a ora reinante em solo tupiniquim, que já ultrapassam 35 agremiações, algumas sem um representante nas Casas Altas.

criações jurídicas e políticas em benefício de um pequeno grupo detentor de prestígio junto ao Capital financeiro e intelectual Parece-me, M., que a questão é dominante em solo brasiliano. Digo isso porque a Corte Suprema, instalada para defesa da Carta Magna Tropical, que é publicada em edições mensais, possui a mesma inconstância do escalão político que não pode escolher, com honestidade, entre o Partido Comunista do Brasil ou o Partido Comunista Brasileiro. São duas legendas que comungam pelo comunismo, mas que não se dispõe a dividir a própria representação legislativa, o que dirá da propriedade e dos meios de produção. Retomando a questão da Suprema Corte, que deveria se ater à promoção de temas relevantes, seus distintos membros não conseguem sair dos folhetins matinais, dividindo espaço com notícias policiais, receitas de bolo, resultados de jogos de futebol e anedotário popular. Há muito a pauta da imprensa vil existente em solo brasiliano registra os nomes e discussões de audiências solenes do Plenário da Suprema Corte, comumente encerrados com a suspensão da sessão, após rusgas e acusações entre os Ministros.

Não duvide V. Alteza do futuro sombrio que aguarda os jurisdicionados em solo tupiniquim. Veja V.M. que em recente discussão sobre a ilegalidade da condução coercitiva de acusado em processo criminal, o placar na Suprema Corte foi de 6 a 5 para caracterizar como ilegal tal prática abusiva. A dissidência para formação de uma maioria nos revela que o assunto tão evidente, que inclusive já conta da legislação processual penal há mais de 60 anos, pode ser deturpado por 5 Ministros da mais alta Corte de Justiça de uma pretensa nação filha de chocadeira, que não herdou a necessária formação estatal de sua colonizadora, promovendo criações jurídicas e políticas em benefício de um pequeno grupo detentor de prestígio junto ao Capital financeiro e intelectual. Penso que V.M. poderia ter imposto a adoção do sistema português para essa colônia americana, tolhendo na raiz esse mal de que os agentes políticos aqui nascidos têm de arvorar o que é público para si e seus pares tão-somente.

Prometo não me afastar dos meus afazeres e reportar à V.M. o quanto antes, esperançoso de que uma veia de bondade a de brotar do vosso peito magnânimo e reverter a pecha que se aplacou nesta terra sem lei e sem cultura, que paga elevado preço por ser rica e próspera apenas para aqueles que possuem os meios de produção.

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